Menos de 3% dos brasileiros têm fluência em Inglês

Por que ainda não somos fluentes em inglês? Menos de 3% dos brasileiros têm fluência na língua que ainda domina o mundo dos negócios. Saiba como correr atrás do prejuízo.

SÃO PAULO — Consensos são raros, mas existem. E, quando falamos de recrutamento, os consultores são enfáticos ao responder qual é o principal ponto fraco dos brasileiros: o baixo domínio do inglês. O gap (sim, gap, palavra usada pelo mercado para definir a falha em alguma competência) influencia negativamente no momento da contratação, na hora de uma promoção e, também, nos ganhos financeiros. De acordo com uma pesquisa da Catho, site de busca de empregos, o domínio de um idioma estrangeiro pode engordar o contracheque em até 52%. Mas, no Brasil, apenas 5% da população fala uma segunda língua e menos de 3% têm fluência em inglês.

Ao contrário do que muita gente imagina, o problema não está só em pessoas de cargos mais baixos. 
Dos 4.000 alunos da Berlitz, escola de inglês, por exemplo, 30% são presidentes e diretores e 60% estão na média gerência – a grande maioria no nível básico. Na direção e na presidência, apenas um terço já é considerado avançado. “Não falar inglês é um impedimento de crescimento na carreira. Em um mundo globalizado, a língua é de extrema importância”, diz Magui Castro, sócia da Caldwell Partners no Brasil, consultoria de recrutamento, de São Paulo. Sem a proficiência, os profissionais ficam estagnados em empresas multinacionais – isso quando conseguem passar pelo processo seletivo. “Mesmo nas nacionais, eles só chegam a um nível mediano, pois para subir é preciso ir a reuniões e congressos internacionais”, diz Magui. E as empresas não podem se dar ao luxo de ter um executivo que não se expressa em inglês – ainda mais em tempos de equipes enxutas e eficientes.
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O domínio do inglês entre os brasileiros é tão baixo que o país ocupa a 41ª colocação de um ranking de 70 países desenvolvido  pela EF Education First. A empresa de educação mediu a proficiência em 910 000 adultos do mundo todo (que não têm o inglês como língua nativa) em quesitos como gramática, vocabulário, leitura e compreensão. Os primeiros colocados na lista são: Suécia, Holanda e Dinamarca. O Brasil aparece atrás de países como Singapura, Peru, Equador, México e Chile. “Tecnicamente, o nível de dificuldade do aprendizado de inglês para um brasileiro é considerado fácil pelos linguistas”, diz Arthur Bezerra, country manager da Berlitz no Brasil.
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Claro que a idade pesa. Quanto mais jovem o aluno for,mais facilidade terá. Mas o número de pessoas que têm disponibilidade para fazer um curso de idiomas – seja por falta de tempo ou de dinheiro – ainda é pequeno. Para Arthur, o tempo é uma das explicações (ou desculpa) para a dificuldade que o brasileiro tem de aprender inglês, mas não a única. Segundo ele, a forma como somos ensinados atrapalha o aprendizado. “Muitos cursos usam metodologias ultrapassadas, cuja intenção é formar professores de inglês, e não comunicadores”, diz Arthur. “A maioria das pessoas consegue ir para a Disney e até fazer entrevista de emprego, mas, na hora de entrar num debate, se perde.” Essa deficiência fica evidente nas entrevistas de emprego em inglês, algo comum entre os recrutadores. Magui conta que já entrevistou vários executivos inteligentes e excelentes em suas funções, mas que só sabem “se virar” no inglês. “Quando um deles precisa se aprofundar em uma conversa no idioma, usa frases curtas por ter um vocabulário limitado e passa a impressão ao entrevistador de que não tem tanto conteúdo quanto tem”, afirma Magui. “Isso o prejudica bastante. Pois, como dizem por aí, ‘perception is reality’”.

Corra atrás do prejuízo 

Ciente dos prejuízos que a falta de um segundo idioma provoca na carreira, muitos brasileiros estão correndo atrás do prejuízo e elevando o número de matrículas nas escolas especializadas. A rede de idiomas Yes!, por exemplo, teve um aumento de 15% no número de alunos interessados em aulas de inglês no primeiro semestre de 2015. “Esporadicamente, recebemos alunos que perderam alguma oportunidade de emprego por não terem conhecimento em um segundo idioma, como inglês ou espanhol, os mais requisitados nas entrevistas”, diz Clodoaldo Nascimento, presidente da Yes!. Sua concorrente, a EF Englishtown, teve um aumento de 20% na procura em 2015.

A língua é tão importante que uma pesquisa da consultoria Robert Half, em parceria com a Education First, revelou que para 80% dos 100 diretores de recursos humanos entrevistados a fluência em inglês é essencial para assumir cargos exponenciais. Mas, desse total, apenas 7% disse reembolsar gastos de funcionários que estudam. É o caso da Rehau, empresa de origem alemã especializada em construção e design de móveis que tem sede em São Paulo, onde trabalha Gabriela Lopes, de 30 anos, analista de marketing e produtos. Há três anos, ela começou a estudar inglês na Cultura Inglesa, graças ao incentivo da chefe e à ajuda de custo da  companhia, que banca 50% do valor do curso. “Sempre achei importante, mas agora eu tenho mais necessidade porque participo de treinamentos com pessoal dos Estados Unidos e da Alemanha, além de me comunicar muito por e-mail no idioma”, diz Gabriela, que sonha em fazer um intercâmbio profissional nos próximos anos. Além do curso, ela tenta assistir a filmes e séries sem legenda e ouvir músicas em inglês. “Assisto ao seriado Revenge e leio muito material da minha pós no idioma”, afirma. 

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O fundamental, além de fazer aulas para compreender a língua (ou se reciclar, caso você tenha aprendido há muito tempo e esteja  enferrujado), é perder o medo de falar em público. No mercado, não há muito espaço para a “gringofobia”. Ter coragem de se apresentar no idioma, mesmo pedindo desculpas por ainda não ser fluente, faz com que o profissional ganhe pontos. “Muitas vezes, as pessoas ficam apavoradas porque não são fluentes e deixam de aprender o essencial. A prática ajuda a conseguir confiança, como qualquer outra habilidade, mas quem tem medo de praticar por não falar tão fluentemente quanto gostaria se bloqueia e não se desenvolve”, diz Camila Pires, coach e diretora executiva da Rede Indigo, do Rio de Janeiro.

Sem desculpas

Outra desculpa que tem que ser deixada de lado é a da falta de tempo. Sim, ele é um dos principais entraves, mas, se falar inglês é uma prioridade na sua carreira, é possível encontrar uma brecha na agenda para estudar. É o que faz Gustavo Charif, de 29 anos, consultor sênior da Avanade, empresa de tecnologia, de São Paulo. Ele usa o horário de almoço para melhorar sua proficiência no idioma, que, desde que entrou na empresa, em 2010, é demandado no dia a dia. “Como estou em uma empresa global e tenho papel de líder, preciso conversar com pessoas de outros países, como Índia e Filipinas, para trocar informações sobre novos produtos e  soluções”, diz. Segundo Gustavo, é importante manter a constância nos estudos para não perder o conhecimento. “Já tinha  estudado por quatro  anos, mas, quando comecei a usar a língua no cotidiano, percebi que só sabia o básico”, afirma Gustavo. Hoje ele se sente mais confiante e participa de um comitê de treinamentos internacionais, onde troca informações sobre o mercado de TI. “Não procuro oportunidades fora do Brasil, mas, com a valorização do dólar, a tendência é aumentar o número de projetos internacionais que contratam brasileiros pelo baixo custo da mão de obra”, diz Gustavo.  

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Atualmente, a Avanade possui cerca de 60 vagas em aberto – e para todas elas falar inglês é crucial. Com escritórios na Índia, Filipinas e Argentina, o trabalho global em conjunto faz parte da operação da empresa. “Procuramos selecionar gente que já tem a habilidade na entrada, mas também investimos em ensino complementar. Muitos candidatos são competentes na leitura, mas não na fala”, diz Jun Endo, country manager da Avanade no Brasil. “Melhorou, mas continua sendo um grande desafio para o país.”

Segundo os especialistas no ramo, para alcançar a fluência, o ideal é fazer um programa híbrido, com aulas ou exercícios presenciais, e complementar o aprendizado com ferramentas online. “Vale usar aplicativos, ouvir música e conversar com estrangeiros. Tem que ralar mesmo”, diz Arthur, da Berlitz. Como a necessidade é a mãe de todo o esforço, quem quer uma promoção, um novo emprego ou fazer um curso no exterior deve se dedicar bastante. O prazo para o desenvolvimento adequado, considerando uma carga horária média entre 12 e 16 horas por mês é de dois anos de estudo. “Se o aluno não estuda nada, não faz o dever de casa e só assiste a duas aulas por semana, o tempo de evolução aumenta”, afirma Arthur. 

Além disso, também é preciso ter clareza do que impedia você de fazer isso antes e encontrar alternativas para superar os desafios. Se a barreira é financeira, há aplicativos e cursos online que são mais baratos do que os tradicionais. Se a desculpa é a falta de tempo, saiba que várias escolas oferecem aulas via internet e muitos professores particulares usam o Skype para conversar com os alunos. Quando a necessidade de um intensivo é urgente, vale ter aulas todos os dias. Claro que passar um tempo fora do país (sem ceder à tentação de falar em português com os brasileiros que estão por perto) costuma acelerar o aprendizado – mesmo que seja por apenas um mês. “É como andar de bicicleta: no começo parece impossível, com o tempo se ganha familiaridade e a pessoa deslancha”, diz Analigia Martins, gerente de marketing da EF Englishtown.

http://www.exame.abril.com.br

 

 

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