Construindo um novo modelo mental para o empreendedorismo brasileiro

Empreendedorismo brasileiro.

Em sua participação na rodada de Diálogos Inovadores da última quarta-feira (28) no IBQP – Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade, Rodrigo Alvarenga nos alertou para a necessidade preponderante de construir uma nova mentalidade para o empreendedorismo brasileiro. Ele nos apresentou o conceito de ecossistemas inovadores através dos modelos existentes no Vale do Silício, em Boston, Dubai e Taiwan, e mostrou como os modelos de empreendedorismo e investimentos possuem visões diferentes.

Primeiro, os projetos de investimento do Vale do Silício incorporam negócios de longo prazo, como é o caso das incubadoras tecnológicas e projetos em estágios iniciais de desenvolvimento de tecnologia. Já na região de Boston e New York, investidores estão bem focados em modelos de monetização, onde a perspectiva de retorno de investimento deve ser apresentada de forma tangível e esclarecedora.

Ambos os sistemas funcionam bem, contudo são modelos distintos. E se você for uma empresa jovem buscando recursos, você precisa ter a sua ideia de negócio projetada de forma atraente para cada um dos modelos existentes. Deve também estar disposto e pronto para fazer um “pitch” a todo instante. Tem que sair de casa pronto todos os dias. E essa é uma característica do modelo mental de ecossistemas maduros, onde as pessoas estão bem preparadas para apresentar as suas ideias. Nesses ecossistemas, os empreendedores fazem a tarefa de casa.

Mas é claro que nem sempre foi assim, afirmou Rodrigo. Para alcançar um nível satisfatório de preparo leva-se tempo, determinação e persistência. No Brasil estamos em fase inicial de desenvolvimento de startups, e no geral ainda não estamos nos preparando para apresentarmos as nossas propostas. Talvez isso ocorra em virtude da nossa cultura de improvisação e de criatividade exacerbada, e como educadora posso afirmar também, da nossa falta de compromisso com o dever de casa. Isso não quer dizer que não temos uma habilidade valiosa, pois eis que a criatividade se apresenta como ingrediente chave para os processos de inovação. Mas, como nos modelos mais maduros, quem está pronto se destaca, e o que não falta no Brasil são oportunidades para destaque.

Quando Rodrigo foi a Taiwan como convidado palestrante, ele aprendeu que o maior medo dos jovens é o medo de falhar. Aqui no Brasil todas as gerações têm medo de falhar. Mas se compararmos esse modelo mental com o de sistemas maduros, veremos que falhar é concebido parte do processo de aprendizado. Rodrigo mencionou quem em algumas situações, o empreendedor que já falhou leva o investimento, pois ele tem a experiência. Ele tentou, falhou e mesmo assim voltou lá e está tentando, persistentemente. Ele mostra que é um empreendedor que está determinado. Por outro lado, quem nunca falhou não sabe onde estão os penhascos e por isso geralmente não rompe barreiras, não é interruptivo. E o fato é que não existe inovação no conforto de nossas casas. Se falarmos de inovação, você tem que sair de onde está, desafiar métodos e conceitos.

Rodrigo nos contou que em 97, enquanto morava na Inglaterra, conheceu alguns chineses estudando através de um programa de governo que enviava estudantes para o exterior para estudar áreas estratégicas para o desenvolvimento. Os países da Ásia no geral tiveram forte atuação do governo para desenvolver suas economias através de planejamentos estruturados, que empoderam empresas das áreas estratégicas. Temos aqui um bom exemplo de como o brasileiro precisa dissolver determinados preceitos e valorizar e apoiar a institucionalidade funcional do Estado e se aproximar de forma mais participativa da construção das nossas políticas de governo. O Brasil possui inúmeros programas governamentais de planejamento macroeconômico dos quais os cidadãos não tomam conhecimento por extensa falta de interesse e participação. A posição do brasileiro é de um modo predominante, a de uma cultura crítica quase que irremediavelmente pejorativa frente à importância da institucionalidade do Estado em sua função de organização e desenvolvimento do conjunto social.

Já explorando o modelo do Oriente Médio, Rodrigo nos contou que lá eles estão construindo um sistema de educação internacionalizado. Eles afirmam que querem formar pessoas capazes de construir o futuro, e por isso querem trazer estudantes de fora para que todos de lá tenham contato com outras culturas. Com isso, eles querem transformar Dubai na capital mundial da educação.

As organizações de Dubai estão atraindo startups do mundo inteiro para que as tecnologias sejam criadas lá, pois mesmo que a empresa criadora da tecnologia vá embora, a cultura inovadora fica. Um exemplo semelhante na América do Sul é o Chile, onde o governo colocou dinheiro em empresas estrangeiras com o objetivo de trazer uma cultura de fora para mudar a realidade econômica local. O resultado disso foi que o empreendedorismo permeou as universidades chilenas.

Por fim, a lição que Rodrigo ressaltou querer passar é sobre o modelo mental. Não são as pessoas que são diferentes. Elas possuem características antropológicas distintas, mas lidam com dificuldades de forma diferente. No caso do Brasil, é muito visível que precisamos passar a construir as coisas de forma mais socialmente colaborativa. Para saber onde queremos ir temos que ter um plano, e que a atual geração de empreendedores pode assumir o papel de mentorar as gerações mais jovens e assumir esse estágio de desenvolvimento do empreendedorismo brasileiro como um momento de transição na construção de uma nova cultura inovadora.


Sobre a autora:

Juliana Michelon Alvarenga é formada em Relações Internacionais e possui MBA em Business Intelligence. Experiência profissional corporativa em linguística, comércio exterior, projetos e pesquisa.

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